Nomes não ganham jogos
Que valente balde de água fria foi este início de semana! Primeiro o Brasil caiu frente à Noruega e, logo no dia seguinte, Portugal disse adeus ao Mundial contra a Espanha, mesmo a queimar o final do jogo.
Para quem, como eu, traz o futebol no coração dos dois lados do Atlântico, foi uma dose dupla de azia. Mas a verdade é esta: as duas seleções mereceram vir para casa mais cedo.
Ainda me recordo do tempo em que a camisola amarela do Brasil, só de aparecer em campo, impunha respeito pela qualidade reconhecida da equipa. Infelizmente, isso já não acontece.
Não me entendam mal: o talento individual dos jogadores das equipas, como o Vini Jr, no Brasil, e o Ronaldo, em Portugal, foi brutal e indiscutível. Não estou a pôr em causa o talento de ninguém a título individual.
O problema é outro. Este Mundial veio confirmar uma regra de ouro que já se ouve desde os tempos do mítico esquadrão brasileiro de 1970: no futebol moderno, o talento individual, sozinho, já não chega para vencer. Se bastasse juntar os jogadores com melhor pontuação e dar-lhes uma bola, não seria preciso haver selecionadores. Chamávamos os craques, eles entravam em campo e resolviam tudo numa “peladinha” de várzea ou num jogo de rua. A realidade não funciona assim. O papel do treinador é essencial para organizar essa matéria-prima.
O grande erro do Brasil foi ir buscar o Carlo Ancelotti, treinador europeu superpremiado e reconhecidamente competente, como se ele fosse um feiticeiro capaz de resolver tudo num estalar de dedos. O resultado foi uma equipa sem alma, sem organização, que por vezes parecia uma autoestrada cheia de espaços para os adversários passarem, com uma qualidade de jogo muito inferior à que os técnicos da casa costumam imprimir. Ver o Neymar entrar no último jogo foi o canto do cisne da seleção. Não por culpa do jogador. A culpa foi de quem o colocou em campo, e a partir daí a equipa piorou ainda mais.
Já Portugal, que também preferiu um selecionador estrangeiro, escolheu alguém que se revelou um bom “relações-públicas“, mas que não pôs a equipa a morder o chão. Insistiu em jogar sempre em função do estatuto de Cristiano Ronaldo, em vez de dar mais espaço à irreverência dos mais novos.
Repare-se que, enquanto a Argentina soube montar uma equipa de “operários” que correm e potenciam a ação do Messi, o Brasil e Portugal fizeram o oposto: tentaram obrigar o futebol moderno a adaptar-se ao estatuto das suas estrelas. Não podia dar certo. E não deu.
Não podemos esquecer que o futebol é um desporto coletivo. Mesmo sendo mais bonito e mais eficaz com craques, sem organização tática, sem entreajuda e sem pernas para correr os 90 minutos em bloco, nem os nomes dos jogadores nem as camisolas da seleção, por si só, ganham jogos.
Espero que os senhores que mandam na CBF, no Brasil, e na FPF, em Portugal, tenham finalmente aprendido a lição nos seus escritórios de luxo. Antes de gastarem milhões à procura do próximo treinador milagroso, talvez fosse mais inteligente fazer aquilo que qualquer organização séria faz quando os resultados não aparecem: olhar para dentro e identificar forças, fraquezas e problemas reais.
Matéria-prima não falta. Brasil e Portugal continuam a produzir jogadores de enorme qualidade. Falta é um plano. O resto é conversa de café.
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