De amigos a inimigos
Imagina que o teu pior inimigo de hoje já foi o teu melhor amigo.
Parece ficção. Mas é exatamente o que aconteceu entre os Estados Unidos e o Irão.
Nos anos 60 e 70, o Irão era governado pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi. Um homem que construiu universidades, deu direitos às mulheres e modernizou o país a um ritmo acelerado. Mas por baixo dessa fachada funcionava a SAVAK, a polícia secreta do regime, que prendia, torturava e silenciava quem ousasse criticar o poder.
Os americanos sabiam. E apoiavam-no na mesma.
A lógica era simples: em plena Guerra Fria, o Irão ficava no centro do Médio Oriente, tinha petróleo a mais e não era soviético. Washington fornecia armamento avançado tais como, aviões de combate F-14, helicópteros militares. Israel mantinha cooperação discreta com Teerão. Era uma aliança pragmática, como tantas outras da época. Durou enquanto foi útil.
Depois chegou 1979.
O Xá fugiu. O poder passou para o Ayatollah Khomeini, um clérigo que voltara do exílio com uma visão completamente diferente para o país. Os Estados Unidos passaram a ser “o Grande Satanás“, literalmente, em discursos oficiais transmitidos na televisão nacional. Israel tornou-se inimigo declarado. E em novembro desse mesmo ano, estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerão e mantiveram 52 diplomatas reféns durante 444 dias. Uma tentativa de resgate falhou de forma humilhante. O trauma marcou décadas de política externa americana.
Nos anos seguintes, tentou-se evitar o confronto direto. Mas nem sempre foi possível.
Em 1988, durante a guerra entre o Irão e o Iraque, a marinha americana patrulhava o Golfo Pérsico para proteger os petroleiros. O navio USS Samuel B. Roberts pisou uma mina iraniana. A resposta foi a Operação Praying Mantis, a maior batalha naval americana desde a Segunda Guerra Mundial, e a única vez em que navios de guerra dos EUA trocaram mísseis superfície-a-superfície com um inimigo em combate real. Num único dia, o Irão perdeu metade da sua frota operacional.
Não era guerra declarada. Mas as ilusões tinham acabado.
Nas décadas seguintes, o conflito viveu nas sombras. O Irão apoiou o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, os Houthis no Iémen, uma rede que lhe permitia agir sem aparecer diretamente. Israel respondia com operações que ninguém assumia. Cientistas nucleares iranianos foram assassinados sem autor confirmado. Centrífugas de enriquecimento foram destruídas pelo Stuxnet, um vírus informático atribuído a Israel e aos EUA que entrou para a história como o primeiro ciberataque de grande escala contra a infraestrutura de um Estado soberano. Os americanos foram apertando as sanções económicas, com impacto direto na população iraniana.
O programa nuclear é, e sempre foi, o centro de tudo.
O Irão enriquece urânio e afirma que é para fins civis. Os EUA e Israel dizem que o objetivo real é uma arma. Em junho de 2025, a Agência Internacional de Energia Atómica confirmou que o Irão tinha urânio enriquecido suficiente para produzir várias ogivas, mas sem evidência verificada de uma arma concluída.
Num regime que durante décadas declarou abertamente querer eliminar Israel, ninguém em Telavive estava disposto a esperar para ver.
Em 2015 chegou um acordo: o Irão congelava o programa, os EUA levantavam as sanções. Obama assinou. Em 2018, Trump saiu unilateralmente. O Irão retomou o enriquecimento. Biden tentou renegociar sem sucesso. Quando Trump voltou ao poder em 2025, fixou um novo prazo. O prazo expirou.
Na madrugada de 13 de junho de 2025, mais de 200 aviões israelitas atacaram instalações militares e nucleares em todo o Irão, numa operação designada Rising Lion. A 22 de junho, os Estados Unidos entraram diretamente no conflito com ataques às instalações nucleares subterrâneas de Natanz, Fordow e Isfahan. Trump declarou um cessar-fogo a 24 de junho e chamou-o Guerra dos Doze Dias, nome que ficou.
Centenas de iranianos e dezenas de israelitas morreram, segundo organizações independentes de monitorização de conflitos. O cessar-fogo foi frágil desde o início e não resolveu nenhuma das questões de fundo.
A 28 de fevereiro de 2026, os EUA e Israel voltaram a atacar, desta vez visando a liderança do regime. O Líder Supremo Ali Khamenei, no poder desde 1989, foi morto nos ataques, tal como foi confirmado pela televisão estatal iraniana e reportado pela NPR, Al Jazeera e Reuters, entre outros. (Algumas agências noticiaram inicialmente que estava vivo; a confirmação definitiva veio horas depois através dos próprios meios de comunicação do Estado iraniano.) O governo declarou 40 dias de luto nacional. Nas ruas de Teerão havia quem chorasse e quem celebrasse.
O Irão respondeu com ataques de mísseis e drones e fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Os preços da energia subiram globalmente. Grandes companhias de navegação suspenderam rotas. Um novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho do anterior, foi nomeado a 8 de março de 2026, mas sem autoridade ainda consolidada. (O seu grau efetivo de controlo sobre o aparelho do Estado é, à data deste texto, objeto de relatos contraditórios em vários meios internacionais.)
Em abril de 2026, quando este texto é escrito, existem um cessar-fogo precário, negociações mediadas pelo Paquistão que avançam e recuam, e um estreito que abre e fecha sem garantias. O que vem a seguir ainda não tem nome.
E enquanto tudo isto acontece, quem paga a conta não são os generais.
No Irão, são as pessoas comuns que encontram os preços duplicados no supermercado. São os jovens que usam VPN para aceder ao Instagram, que ouvem rap, que querem estudar fora, mas crescem num país sufocado por um regime que não escolheram. Em 2022, quando Mahsa Amini morreu depois de ser detida pela polícia religiosa por usar o véu de forma “incorreta”, o país explodiu. Raparigas a cortar o cabelo na rua. Jovens a arriscar a prisão por cantar. Esse Irão existe, só que ainda não tem força suficiente para mudar o rumo.
Em Israel, há famílias que cresceram com sirenes de ataque aéreo como banda sonora da infância. Jovens que aos 18 anos vão obrigatoriamente para o exército, não por romantismo, mas porque o contexto não lhes deixa outra opção.
Nos Estados Unidos, há soldados enviados para conflitos cujos objetivos nunca ficaram completamente claros… que voltam (quando voltam), com feridas que não são todas visíveis.
Como é que isto acaba?
A resposta honesta é que não se sabe. Há um novo líder em Teerão sem legitimidade consolidada, um estreito bloqueado que afeta cadeias de abastecimento globais e negociações em curso sem garantias de nada.
A história mostra que conflitos deste tipo raramente terminam com um tratado grandioso. Mudam de dentro, quando uma geração cansa de carregar os ódios da anterior, quando alguém percebe que o custo de continuar é maior do que o custo de parar.
Esse momento pode estar próximo. Ou pode demorar anos.
O que já não é possível dizer é que isto não tem nada a ver connosco!
Está no preço da gasolina, nas cadeias de abastecimento, nas decisões que os governos tomam por causa do que acontece a milhares de quilómetros.
O triângulo entre os EUA, Israel e o Irão nunca foi apenas problema deles.
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