Para além dos cravos
Há coisas que aprendemos na escola, mas que só mais tarde fazem sentido. O 25 de abril é uma delas. Durante anos ouvimos falar da revolução e da liberdade, mas só com o tempo comecei a perceber o que aquilo significava mesmo para quem viveu antes de 1974.
Portugal vivia sob censura e medo, com uma guerra em África que parecia não ter fim. Era um país fechado, cansado, onde mudar por dentro parecia quase impossível. Para quem nasceu depois, isto é difícil de imaginar.
O mais curioso é que tudo começou com militares jovens que já não viam sentido no regime. Avançaram — talvez sem saber exatamente até onde aquilo podia chegar — e ninguém antecipou bem o que viria a seguir.
O povo saiu à rua, juntou-se, apoiou. Houve ali qualquer coisa quase imediata, como se estivesse tudo à espera daquele momento. E, de repente, um regime com décadas caiu.
Depois vieram as discussões políticas, os excessos, as incertezas e a descolonização. Não foi um processo bonito nem linear. Houve erros, tensões e consequências que ainda hoje deixam marcas.
Mas foi também aí que começou a construção da democracia. Imperfeita, cheia de contradições, mas real. Direitos que hoje parecem básicos — votar, falar, discordar — começaram ali, no meio dessa mudança toda.
Com o tempo, o país foi mudando. Entrou na Europa, modernizou-se, abriu-se. A liberdade passou a ser algo normal, quase invisível no dia a dia.
Isso não quer dizer que esteja tudo resolvido. Ainda há desigualdades, desconfiança na política e críticas constantes. E isso também diz alguma coisa sobre o tipo de sociedade que fomos construindo.
Ontem, nas comemorações, viu-se um pouco de tudo. Para além das cerimónias oficiais, as ruas encheram-se de famílias, grupos de amigos, gente mais velha emocionada e muitos jovens a tentar perceber melhor o que aquilo representa.
Havia cartazes, música, palavras de ordem — algumas de sempre, outras mais recentes. Em certos momentos parecia uma festa; noutros, dava a sensação de que as pessoas estavam ali mais para pensar do que para celebrar.
Também houve contestação. Gente a criticar, a levantar questões, a usar o momento para dizer que nem tudo está bem. E isso acaba por fazer sentido.
O 25 de Abril não ficou no passado. Continua a acontecer, todos os dias, na forma como cada um usa — ou não — a liberdade que tem.
Share this content:


Publicar comentário